Discurso de jornalistas precários da RTP no 4º Congresso: Somos muitos. Demasiados.

Publicamos hoje a comunicação realizada por jornalistas da RTP no 4º Congresso dos Jornalistas. Esta foi uma das comunicações mais aplaudidas neste congresso em que a precariedade no sector marcou a agenda dos trabalhos durante todos os dias.

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«Somos muitos. Demasiados.
Somos a voz, a cara e as mãos do serviço público de rádio e televisão em Portugal. Somos centenas de falsos recibos verdes. Somos muitos. Demasiados.
Não somos só jornalistas, também produtores, técnicos, animadores e muitas outras pessoas que todos os meses são tratados como uma compra qualquer. Quem nos paga não são os recursos humanos, é a direção de compras.
Mas, no entanto, são compras bem feitas. Se assim não fosse, não estaríamos em directo diariamente e não passariam por nós decisões editoriais. Sim, alguns de nós editam noticiários e programas.
Ainda assim, cumprimos ordens: existe uma hierarquia a respeitar, tal como o horário de trabalho. Horário esse que pode esticar e mudar, seja fim-de-semana ou feriado, dia ou madrugada. Não há horas extra, nem sequer horas nocturnas para aqueles que diariamente asseguram o serviço público de rádio e televisão.
Estão enganados se pensam que somos compras caras. Também não somos. Há, aliás, alguns de nós que, todos os meses, levam para casa algo que, em termos líquidos, está próximo do salário mínimo nacional. A rondar os 600€ por mês e os 7.000€ por ano.
A juntar a isso, não podemos querer ser mães ou pais. A não ser que tenhamos um bom suporte porque não há licenças de maternidade ou paternidade. Ainda podíamos meter férias, mas elas são muito escassas. Há quem tenha tido apenas 5 ou 10 dias úteis num ano e quem simplesmente não teve direito a férias. Como também, claro, não temos subsídios nenhuns, nem de férias, nem de natal, nem de alimentação.
E estudar? Não vale a pena pensar nisso, ou, pelo menos, não vale a pena pensar num estatuto de trabalhador- estudante que não nos vai ser atribuído.
E se nos magoarmos em serviço? Não temos qualquer seguro de acidentes de trabalho ou ajuda para pagar esse mesmo seguro.
Somos a voz, a cara e as mãos do serviço público de rádio e televisão.
Tratados como pedidos de compra, temos material atribuído, temos permissão para conduzir carros da frota, mas não temos um contrato de trabalho.
Parece uma coisa tão básica para todos, mas é algo que faz uma grande diferença para nós.
Podemos ser despedidos de um dia para o outro. Somos ‘flexíveis’! Mas esta flexibilidade da empresa é a nossa insegurança: a RTP não paga a nossa Segurança Social e se nos despedir ficamos sem rendimentos.
Somos centenas na RTP e outras centenas nas várias empresas de comunicação social. Vários falsos-correspondentes / free-lancers, que só estão nessa situação porque a isso são obrigados. E dezenas de milhares no sector privado e no público: professores contratados, professores das AEC, trabalhadores dos call-centers, contratos de emprego e inserção, trabalhadores de vários sectores com contratos mensais, estagiários que não recebem e muitos outros. A nossa luta é a mesma.
A luta é comum também à dos restantes trabalhadores da RTP e de outras empresas, que viram os salários cortados, carreiras congeladas, progressões canceladas. Não nos deixaremos encantar pelo discurso daqueles que querem colocar trabalhadores precários contra os trabalhadores dos quadros. Estamos e estaremos sempre do mesmo lado dos nossos camaradas de redacção.
Esta é uma luta que deve ser abraçada por todas as organizações representativas dos trabalhadores e por todos os progressistas, não apenas pela vertente humana e social, mas também pelos desafios que coloca. Pela falta de direitos, os precários não têm, em teoria, voz nessas organizações. Não podem votar ou ser eleitos. O que provoca problemas e situações de crise nas próprias estruturas. Um exemplo: a rádio na RTP está sem Conselho de Redacção há anos porque os precários são uma grande fatia dos trabalhadores. E o problema vai agravar-se cada vez mais.
A precariedade é também uma ameaça à qualidade do jornalismo. Vários estudos demonstram a influência que a fragilidade laboral tem nos conteúdos jornalísticos, isto é, nas notícias. Menor poder de decisão, maior subordinação, pressão salarial e laboral.
Somos centenas. Somos muitos. Demasiados. Queremos que a lei se cumpra: queremos os nossos direitos. Queremos um contrato. Queremos ser integrados nos quadros. Queremos um salário digno, férias, espaço para constituir família, direitos de maternidade e paternidade, acesso aos cuidados médicos e tempo para estudar.
Queremos segurança.
É com brio que todos os dias vestimos a camisola do serviço público. A camisola que nos faz cumprir horário, ter chefia e escalas de equipa. É com brio que todos os dias entramos na RTP, a norte ou a sul, prontos para dar o melhor de nós. É com brio que assumimos as responsabilidades apesar de sermos falsos recibos verdes. A empresa precisa de nós, o serviço público precisa de nós… E nós, de que precisamos? De dignidade.
Nós: a voz, a cara e as mãos do serviço público de rádio e televisão em Portugal.»

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