Miguel Gonçalves – Poster-boy do Miguel Relvas

Miguel Gonçalves e o seu professor Miguel Coelho, ambos no Prós e Contras

Miguel Gonçalves e o seu professor Carlos Coelho, ambos no Prós e Contras

IMPULSO JOVEM:

Miguel Relvas escolheu um “jovem” de 33 anos para dar a cara pelo programa “impulso jovem” (vê notícia aqui). Este é um programa de emprego para jovens criado pelo ministro em Agosto de 2012. A ideia é boa, mas há um problema: como o Governo e a Troika destruíram a economia, Miguel Relvas não tem empregos disponíveis para garantir este “impulso jovem”. Estando a sua posição política dependente deste programa, Relvas viu-se obrigado a investir em marketing. Respondendo a esta necessidade, recrutou o “jovem” Miguel Gonçalves para ser o “poster-boy” do programa. Mas Gonçalves não é um jovem, é um empresário.

QUEM É O MIGUEL GONÇALVES?

Miguel Gonçalves, começou a ter alguma projecção nas redes sociais através de vídeos no youtube. O Miguel é um bom orador, e mesmo defendendo ideias neoliberais que são prejudiciais à maioria das pessoas, conseguiu criar um “buzz” forte à sua volta. A forma eloquente e incisiva com que fala ajudou-o a ganhar visibilidade no youtube. A retórica inflamada contou mais que os pontos de vista defendidos, prova disso é que a sua posição política de direita foi desprezada e tomada como inofensiva na hora de partilhar os vídeos.

YOUTUBE E PRÓS E CONTRAS:

Não é verdade se dissermos que o Miguel Gonçalves é um fenómeno exclusivamente do youtube. Existe hoje uma relação dialéctica (embora assimétrica) entre os vídeos online e os programas de televisão, o que permite aumentar de forma exponencial a visibilidade de determinadas personagens que de forma ardilosa tiram proveito deste intercâmbio de conteúdos. Ainda assim a televisão continua a ser o elo mais forte.

Uma das primeiras intervenções de grande visibilidade do Miguel Gonçalves foi no programa Prós e Contras. Logo aí era para desconfiar. O Prós e Contras foi utilizado como instrumento de propaganda para preparar a entrada do FMI em Portugal e serve ainda hoje para incutir na população a aceitação de uma reconfiguração do regime político. No prós e Contras o debate acontece de forma bastante desequilibrada  sendo que a grande maioria dos intervenientes no programa defendem políticas de retrocesso social. Para não se esvair a ideia de que apesar de tudo se trata de um debate, por vezes vêem-se obrigados a convidar algumas pessoas que se opõe à austeridade. Esses convidados além de minoritários no programa são ainda descredibilizados pelas intervenções de Fátima Campos Ferreira. Com Miguel Gonçalves foi diferente, Fátima Campos Ferreira desde logo acarinhou as suas ideias.

GURU DO CONFORMISMO:

Em tempos de crise Miguel Gonçalves surge como o guru do conformismo. A forma depreciativa como numa conferência TEDx se refere às manifestações tem subjacente um apelo à desistência endossado àqueles que na rua têm vindo a demonstrar um comprometimento com projectos de transformação social. O Miguel não concorda com as manifestações, para si é preferível que se mantenha o actual “estado de coisas”. Recusa a democracia e não aceita que as pessoas possam ter uma palavra a dizer sobre o modelo social que lhes é imposto.

Na sua lógica, o problema estrutural da precariedade e do desemprego não é para resolver, as pessoas é que têm obrigação de se auto-comprimirem nos interstícios dessa violência social. Pouco importa resolver os problemas, o importante é mitigar: sempre pela lógica da passividade e da submissão.

 QUE SE LIXE O EMPREENDEDORISMO:

Aceitar ser o pano da bandeira de Miguel Relvas é em si mesmo reprovável, mas as nossas críticas são anteriores a esta contratação. Já em Agosto de 2012, no artigo Que se Lixe o Empreendedorismo publicado aqui no blogue dos Precários Inflexíveis, era feita uma caracterização dos discursos de Miguel Gonçalves e Carlos Coelho.

Carlos Coelho é o “professor” de Miguel Gonçalves, embora Carlos opte por uma postura mais próxima do “guru despistado”. São diferentes na forma, mas muito semelhantes na dimensão ideológica dos conteúdos. Ambos estão bastante comprometidos com o sistema político e económico vigentes, embora inexplicavelmente beneficiem de uma aura de “independentes” que lhes permite granjear audiências em universidades e não só.

Ao desemprego e à generalização da precarização das relações laborais, o governo tem-se limitado a responder com “empreendedorismo”. É neste ponto que o discurso de Miguel Gonçalves, ou de Carlos Coelho, coincidem com a política geral do Governo. O “empreendedorismo” poderá até ser visto como uma abstração se levarmos em consideração que não resolve os problemas concretos, mas é importante que nos foquemos naquilo que podem ser as suas consequências reais.

O “empreendedorismo” é o projecto de uma sociedade de empresários. Todos contra todos. Zero de solidariedade. Negação do contrato social. Todos seriam empresários, e o antagonismo entre trabalhadores e patrões seria diluído artificialmente. Os trabalhadores passariam a acreditar que eram empresários. Não se concebendo enquanto trabalhadores deixariam de estar disponíveis para defender os direitos associados ao trabalho. O governo desresponsabilizar-se-ia pela criação de emprego, cada “trabalhador-empresário” passaria a ser o responsável pela criação do seu próprio posto de trabalho. Tudo passaria a estar sujeito à lei da oferta e da procura, tudo obedeceria às leis do mercado. Nem mesmo as subjectividades individuais escapariam às lógicas de mercantilização. Uma sociedade que seria reduzida à soma dos seus indivíduos. Esta é a distopia presente no subtexto do “empreendedorismo” e já visível em embrião nas políticas do governo ou nos discursos do Miguel.

Os grandes problemas colectivos só podem ser resolvidos com soluções de conjunto. Quando o Miguel remete as pessoas para o individualismo, está no fundo a fazer com que esses problemas não tenham qualquer hipótese de resolução. Para este “guru do conformismo” ser pró-activo é correr em círculos  nunca se sai do mesmo lugar. Torna-se um ciclo vicioso em que nada do que é estrutural muda.

Miguel Relvas e Miguel Gonçalves são ambos filiados num darwinismo social em estado puro, pouco lhes importa se alguém fica para trás.

Se os Migueís são um problema, demitir o governo é a solução.

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