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precariosinflexiveis Agosto 10, 2007
Disse recentemente João Sentieiro, presidente da Fundação de Ciência e Tecnologia, que não compreendia as queixas dos bolseiros de investigação científica já que estes “fazem o que gostam”.

Perceberam?

Isto significa que como o investigador/a fez a licenciatura da sua escolha e lhe deram a oportunidade de desenvolver trabalho de investigação na sua área, então ele/a devem estar agradecidos e são até uns priveligiados, que não devem estranhar o facto do valor das bolsas não ser actualizado há uma década, nem o facto de não terem direito a subsídio de desemprego, de natal, de férias, de doença, de maternidade, segurança social, ou perspectivas de ter um contrato de trabalho.

Para quê receber dinheiro ou ter estabilidade no trabalho quando podemos fazer aquilo de que gostamos?

João Sentieiro compreende de facto a realidade da investigação em Portugal.

Será que conhece?

Talvez não saiba que todos os anos milhares de investigadores vão para outros países para investigar sem intenções de voltarem. E não é certamente porque não gostassem de cá ficar, mas simplesmente porque não têm condições.
Talvez não saiba que cada vez mais os licenciados desistem da investigação para fazerem outros trabalhos que exigem menos qualificações. E fizeram-se 5 (ou 3) anos de licenciatura para nada… Neste momento um operador de call center, um segurança ou uma mulher adias conseguem receber mais dinheiro que um investigador e não têm menos direitos. Alguns deles até terão melhores condições.

A estratégia da Ciência em Portugal neste momento é no mínimo confusa e francamente ineficaz.
Em primeiro lugar as bolsas de investigação, das comuns “BICs” às bolsas de mestrado, doutoramento ou pós-graduação, não são aliciantes nem suficientes para alguém que está no seu início de vida e que sabe que no estrangeiro irá receber o dobro do dinheiro e o dobro dos recursos para fazer um bom trabalho.
Em segundo lugar, tenta-se fazer o incentivo ao retorno a Portugal de alguns “notáveis” (reconhecidos pala publicação de x número de artigos científicos) que foram para o estrangeiro. Ou seja, pede-se a quem desistiu de Portugal (sabe-se lá porquê) e que construiu toda a sua carreira no estrangeiro que volte.

Não seria mais fácil dar condições aos investigadores que ainda não desistiram de Portugal? Não seria mais fácil evitar a fuga de cérebros?

A geração anterior tinha contratos de trabalho. Existia a carreira de Investigador.
Até o Ministro Mariano Gago, que antes da sua entrada para o governo Sócrates defendia a necessidade da criação de emprego científico, agora remete-se ao encolhimento dos ombros.
A investigação já não é para quem gosta. É para quem aguenta ou para quem não tem nada melhor para fazer.

E é por isso que os privilegiados, digo, bolseiros se começaram a mexer.

  • Depois do Verão de 2006, a “Fuga de Cérebros” simbolicamente organizada no Aeroporto de Lisboa conseguiu juntar cerca de 30 bolseiros.
  • Antes do Natal a manifestação dos “Bolseiros nas lonas”, onde duas dezenas de tendas e mais de uma centena de bolseiros se manifestaram em frente à Assembleia da Republica, mostrou que o movimente crescia e podia ter maior capacidade de mobilização.
  • Às 17h de uma quarta-feira de Julho passado, foi possível reunir mais de 200 bolseiros que vieram de todo o país e que estiveram em frente do Ministério da Ciência e Tecnologia em Sete Rios a mostrar o seu desagrado pela inexistência da carreira de investigação e de contratos de trabalho.

A Associação de Bolseiros de Investigação Científica (ABIC – www.bolseiros.org ) tem apoiado ou organizado estas manifestações, mas podia e pode fazer muito mais.

Hugo Evangelista – Biólogo (ISA)
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