E se os problemas do país se juntassem numa sala?
Foi o que aconteceu ontem em Lisboa. No Centro de Congressos de Lisboa pudemos assistir a um desfile de notáveis, os verdadeiros “donos da crise”: toda a banca, o Banco de Portugal, os grandes grupos económicos e para aprimorar, Franquelim Alves e Vítor Gaspar. O resultado foi o esperado: a repetição à náusea das mesmas ideias que nos trouxeram até aqui: flexibilidade, empreendedorismo, reformas estruturais e regresso aos mercados vão resolver os problemas do país. Juntaram-lhes no entanto algumas ideias para cavar mais ainda o fosso.
No mesmo dia em que se conheceram os já esperados dados avassaladores do desemprego (17,7% de desemprego oficial, novo recorde), juntaram-se na mesma sala para trocar opiniões sobre o país todos os presidentes dos cinco maiores bancos portugueses – Ricardo Salgado (BES), Nuno Amado (Millenium BCP), Fernando Ulrich (BPI), José de Matos (CGD) e António Vieira Monteiro (Santander Totta) –, o presidente do Banco de Portugal, Carlos Costa, o anfitrião, presidente da CIP, António Saraiva, e os convidados de honra, o ex-banqueiro do BPN tornado Secretário de Estado, Franquelim Alves e o Ministro das Finanças, Vítor Gaspar.
O resultado foi um show de terror ideológico como não temos possibilidade de assistir todos os dias: perante o desastre económico construído por estas pessoas, em particular o desemprego, vieram defender a continuidade das mesmas políticas como solução.
António Saraiva disse que “o desemprego começa a ser um grave problema”, insistindo que os patrões e as grandes empresas devem ser “dotadas de mecanismos” numa reindustrialização furiosa com destruição dos direitos do trabalho como solução.
O presidente do BCP, Nuno Amado, defendeu a necessidade de “cortar salários” por “dois ou três anos em vez de haver menos emprego”, defendendo ainda que as maiores empresas do país deveriam descontar menos para a Segurança Social “de forma significativa”.
A Franquelim Alves coube defender a inevitabilidade do desemprego “o desemprego é uma situação muito dolorosa para o país, mas nós temos que viver com a realidade objectiva”, dizendo ainda que o governo tem tomado medidas para que situação seja menos grave (cabe perguntar quais?).
Fernando Ulrich do BPI avançou com uma velha nova proposta que chegou ontem de Bruxelas: avançar para a taxação dos depósitos acima dos 100 mil euros, que considera “uma boa notícia”, que garante que os depositantes seriam mais exigentes quanto à escolha dos bancos com que trabalham.
Vítor Gaspar continuou a cantar o “regresso aos mercados” e decretou ali mesmo que a recuperação estava a começar e que o investimento para o emprego estava a voltar.
A consideração mais grave do dia foi, no entanto, a de Carlos Costa, Governador do Banco de Portugal: perante a plateia atacou o “vício do contrato permanente”, defendendo mais precariedade como forma de combater o desemprego, como se já não estivesse sobejamente provado a nível nacional e internacional que é essa mesma precariedade o maior motor do desemprego.
A crise juntou-se hoje numa sala de Lisboa e anunciou mais crise. Está na hora da solução popular exigir a saída da crise. E a saída da crise passa por fazer quem estava naquela sala deixar de ter poder.





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